Todas as semanas há uma nova manchete. Ora a IA vai substituir os médicos, ora as máquinas diagnosticam melhor do que as pessoas, ora daqui a dez anos as consultas serão conversas com um algoritmo… O debate é ruidoso, e compreende-se: vende mais «a IA vai substituir o médico» do que «a IA vai poupar-lhe quarenta minutos de papelada».
Mas, enquanto o debate faz ruído, a realidade avança em silêncio. Segundo o inquérito de 2026 da American Medical Association, 81% dos médicos já utilizam inteligência artificial na sua prática, mais do dobro do que em 2023. A pergunta já não é se a IA entrará na saúde. É com que regras.
Fonte: Inquérito de 2026 da American Medical Association.
E é aí que surge uma pergunta que nos fazem frequentemente, em hospitais, em congressos e também dentro da equipa: com uma tecnologia que muda a cada poucos meses, o que é que se mantém?
Os modelos de IA que usamos hoje não se parecem com os de há um ano, e não se parecerão com os do próximo ano. O que não muda são os critérios com que construímos. E estes são inegociáveis.
O médico decide. Sempre.
O custo da documentação clínica está medido: um estudo publicado em Annals of Internal Medicine, com dados de 100 milhões de consultas e 155.000 médicos, quantificou em mais de 16 minutos por doente o tempo dedicado ao processo clínico eletrónico. A SofIA existe para recuperar esse tempo: ouve a consulta, estrutura a informação, redige a nota clínica, propõe a codificação. E para aí. Nada entra no processo clínico sem que o profissional o valide. Pode editá-lo, corrigi-lo ou descartá-lo, e tudo fica rastreável.
Não é uma limitação técnica que esperamos superar um dia. É uma decisão de conceção. A IA pode preparar o terreno melhor e mais depressa do que nunca, mas há algo que não se delega. Se amanhã uma versão mais potente dos nossos modelos nos permitisse saltar esse passo, continuaríamos a não o fazer.
E não somos os únicos a pensar assim: no mesmo inquérito da AMA, 85% dos médicos pedem para participar nas decisões sobre as ferramentas de IA adotadas e a forma como são adotadas. O profissional não quer ser substituído nem que decidam por ele. Quer estar no comando. É para isso que construímos.
O critério clínico não se delega. A IA prepara o terreno; a decisão é do médico.
Por detrás da automatização há pessoas. Propositadamente.
A MarIA atende chamadas e mensagens a qualquer hora, confirma consultas, esclarece dúvidas frequentes. E quando a situação o exige – porque o caso é complexo, porque a pessoa o pede, porque algo não bate certo –, encaminha para uma pessoa. Essa via de saída não é um plano B: faz parte do sistema.
Automatizar o que é repetitivo não significa eliminar as pessoas da equação. Significa que a equipa de um call center deixa de andar atrás de chamadas perdidas e pode dedicar-se ao que realmente precisa de atenção humana.
A pergunta que fazemos não é «quanto podemos automatizar?», mas sim «o que merece o tempo de uma pessoa?».
A tecnologia adapta-se às pessoas, não o contrário
Há alguns meses, num dos grupos hospitalares com que trabalhamos, detetámos algo que nenhum manual técnico contempla: em neerlandês, não tratar alguém de forma cerimoniosa pode ser considerado uma falta de respeito. O assistente de voz não estava a utilizar o registo adequado com os doentes neerlandeses. Foi corrigido num dia.
É um pequeno pormenor, e é precisamente por isso que nos importa. Uma tecnologia que obriga o doente a adaptar-se – a outro idioma, a outro registo, a uma aplicação que não sabe utilizar – está a resolver o problema pela metade. É por isso que os nossos agentes falam o idioma do doente e funcionam por telefone ou WhatsApp, sem pedir a ninguém que aprenda algo novo.
Se não for seguro e rastreável, não avança
Na saúde não vale o «move fast and break things». Cada resposta dos nossos agentes tem de poder ser explicada: que informação utilizou, de onde veio, quem a validou. Se algo não puder ser rastreado, não chega a produção. Simples assim.
É por isso que escolhemos o caminho mais longo: certificarmo-nos, submetermo-nos a auditorias e aos enquadramentos regulamentares mais exigentes do setor da saúde. Não porque fique bem no site, mas porque a segurança e o cumprimento regulamentar não são uma formalidade a cumprir no fim: são condicionantes com que concebemos as soluções desde o primeiro dia.
Preferimos que um hospital confie em nós daqui a cinco anos a impressioná-lo durante cinco minutos.
A tecnologia passa. O critério fica.
Não sabemos exatamente como será a IA daqui a dois anos. Ninguém sabe, e quem disser o contrário está a vender alguma coisa. O que sabemos é com que critérios a incorporaremos: o médico decide, há sempre uma pessoa por detrás, a tecnologia adapta-se às pessoas e nada avança sem ser seguro e rastreável.
No fim, a resposta ao grande debate é mais simples do que parece. A IA não vem substituir o médico. Vem devolver-lhe algo que o sistema lhe tinha tirado: tempo para olhar para o doente. E isso, por muito que a tecnologia mude, é o que não vai mudar na Omniloy.
Quer saber como aplicamos estes princípios no seu centro de saúde? Fale com a nossa equipa.